Os pais não me incomodam. Suportam bem o meu silêncio. Talvez só queiram verificar que não faço algum mal. Não me dou ao trabalho de lhes explicar que não há qualquer problema nem sequer ando triste. Resido nisto, só. Advertisements

Não faço ideia se os meus pais estão por cá. Passam mais tempo na cidade do que eu. Não suponho que tenham assim tantas raízes lá e até julgo que ficaram felizes por me ver retomar propriedades que vinham dos avós. Mas um cabeço elevado separa as nossas casas e a estrada, vinda do apeadeiro, […]

Talvez por isso me custe tanto levantar. É que a seguir, pessoas. Terei de conduzir até ao apeadeiro e, como combinado, deixarei o carro no terreno da tia, bastando-me daí subir até à plataforma. Sem falar com ninguém, a tia saberá que hoje fui ao escritório – e, por acréscimo, o resto da família.

Alguém. Mudei-me para esta moradia chã e tenho medo de retraçar as palavras que me inspiraram a vir para aqui. Ou porque concordei com elas tardiamente – e é frustrante. Ou procurei agradar a vontade de outrém, inconscientemente?

Talvez não queira o ontem e esse passado, no fim de contas. Apenas adiar o dia de hoje? Rejeitar qualquer tomada de decisão, seguramente, ou qualquer evento que obrigue definir a minha vida. Numa bifurcação, esperar sempre por alguém. Mesmo que já não venha.